Uma de minhas primeiras e mais verdadeiras dores foi descobrir que uma pessoa podia ter mais de uma casa durante a vida. É inesquecível a tristeza das mãos de meu pai, em nossa primeira partida, arrumando o que restava da família em caixas de papelão, nas quais o silêncio ajudava a acomodar as lembranças úteis. O certo não seria nascer e permanecer num só lugar? Não, às vezes é preciso mudar. E o barulho da fita lacrando o pouco a ser carregado me ensinou que pertencer é um sentimento amplo demais para se confiar a eternidade de alguns segredos às paredes de um quarto.

Possivelmente essa descoberta tenha sido a minha porta de entrada no universo das palavras que, entre o grito e o sussurro, traziam a sensação de conforto. Uma xícara de café com leite quente para consolar o frio de não compreender abandonos. As palavras se mostravam confiáveis: ficavam nos cadernos e, embora aceitassem rabiscos, não renegavam o lar oferecido. Foram elas que me apresentaram à poesia, que nada garante, somente acolhe - até as próprias palavras, quando em seu reino não sabem se para elas haverá amanhã.

A poesia chegou, ou eu cheguei a ela, já não me recordo, numa tarde amena em que o pensamento pareceu ter sofrido um desmaio bom, ter aceito uma contradança inesperada mas ritmada pelo batuque pequeno do coração. Uma escola de samba atravessou a avenida do peito de um menino avesso a grandes conquistas. Quando voltei a mim, ainda um pouco tonto, ainda um pouco passista, pouco entendi, porém percebi em minhas mãos o troféu de tijolos macios e argamassa fresca. Naquele dia, independentemente de pai e mãe, resolvi fixar moradia na poesia e construir, sem dar conta exata do que fazia, a casa definitiva e sem chances de demolição dos meus futuros amores.

Foi a poesia que me disse: não é feio amar. Eu achava de muito mau gosto o amor entre duas pessoas, um gesto equivocado, um incômodo desnecessário, um empecilho diante da grandeza da vida. Tanta a coisa a fazer, a revelar, a viajar e volta e meia lá estava um casal em plena rua a jurar eterno o que soava tão frágil. Odiava ir a casamentos e ter que acompanhar uma cerimônia quase tão açucarada quanto o mel que eu não suportava tomar para evitar resfriados. Até que no casamento de um vizinho – como vizinho gostava de casar! – ouvi o padre afirmar que as alianças eram de ouro porque resistia ao fogo e, assim sendo, o amor verdadeiro saberia vencer qualquer barreira. Ainda hoje poderia repetir a expressão de enfado quase adolescente do meu rosto ao escutar a sua fala, à frente de noivos mais nervosos que emocionados. Mas naquela noite, deitado em minha cama, em que o sono fugira, possivelmente no bagageiro do carro dos noivos – latas penduradas anunciando recém-casados era muito cafona! –, as palavras do padre não saíam de minha cabeça e ouvi com total clareza a poesia vir de mansinho me dizer: não é feio amar.

Mesmo sem ter amores, não tive outro jeito a não ser seguir as ordens de quem me deu um lar e passei a escrever poemas para o amor que, quisesse eu ou não, um dia chegaria. Talvez gostasse de saber que com ele, de alguma forma, há tempos, eu já me importava. Na verdade, havia uma penumbra desconhecida que vez por outra povoava meu sono e para ela comecei a dedicar versos, melosos, mas sinceros. O tal dia chegou e foi bom ter poemas para saudá-la e para admitir, entre encontros e despedidas, que a poesia está sempre certa (em suas escrituras que em nada lembram as leis humanas). Seu tempo é outro, não pode ser medido em instantes ou pausas; só ela realmente pode falar em eternidades, enganos, promessas, desacordos. Só ela poderia, tantos anos depois, resolver brincar de vento, se infiltrar nos baús lacrados de meus porões e redesenhar a sorte de centenas de cartas escritas que, enfim, ganham a coragem de ser enviadas.

Espero que o teu endereço, grande amor, ainda seja o mesmo.

 

Novamente aos 15, novamente me vejo diante daquele que me fez entender, em detalhes, o que a tia queria dizer com “um par de olhos azuis pode levar uma mulher à loucura”. Ele tinha nome de santo, mas sorria de forma ateia e sensual. A esposa vigiava cada passo de seu sorriso para que não chegasse inteiro ao olhar de qualquer uma das outras mulheres presentes. Mas eu estava livre do seu radar e pude, durante uma tarde de janeiro, me apaixonar para sempre. E, pelo visto, duvidar do que a tia queria dizer com “paixão é algo que não se explica”. Havia uma explicação. Um par de olhos azuis podia levar qualquer um à loucura. Falava pouco, parecendo um acordo com a vida. Se mais falasse, poderiam achar que Jesus voltara para salvar a humanidade outra vez ou que estava se candidatando a um cargo político. Mas era somente um trabalhador sem qualificações específicas, com dificuldades para fechar o mês. Eu escutava todas as conversas em que ele era o centro das atenções, não deixava escapar nenhuma informação. Também seus lábios tinham olhos azuis.

Eu observava o quase desespero dos maridos, que tragavam com força seus cigarros enquanto batiam os dedos nervosos nos copos de cerveja. Era clara a inveja de cada um e visível a preocupação de que aquele forasteiro decidisse levar suas esposas à loucura. Quem resistiria a um convite para fugir em seu cavalo branco? Ainda que elas quisessem, seria impossível dizer não. E eram francas, em momento algum escondendo a intenção de segui-lo, caso o destino assim o propusesse. Caso ele assim uma delas escolhesse. Mas eram todas colocadas em seus devidos lugares e poltronas pela dona oficial daquele par de olhos azuis que, diante de um assunto mais demorado, disparava o seu chicote e ferino, interrompendo diálogos e mal intencionados.

Até que Jorge (era esse o seu nome) resolveu ser, além de belo, simpaticamente correto, dirigindo a palavra ao único adolescente no recinto.
– E aí, rapaz, qual o seu time?
Ele havia me escolhido para desembaraçar o silêncio que se instalara naquela sala de classe média, Leblon, que reunia familiares e amigos para um almoço de domingo.
– Sou Flamengo. E você, Jorge?
Como tive coragem de responder? Como tive coragem de fazer uma pergunta? Como tive coragem, tão sem querer, de pronunciar o seu nome? Será que eu perdera a noção do perigo em ser mais um a despertar a ira de sua esposa? E se tivesse dito sem perceber “E você, amado Jorge”? Será que ele também torcia pelo Flamengo? Seria um sinal de que tínhamos algo em comum? E se me convidasse para ir ao Maracanã ? E se odiasse o Flamengo? Por que seus olhos eram mais impressionantes e azuis do que o necessário? Por que não me respondia logo?

Alguma de suas indiscretas pretendentes desviou de mim o olhar de Jorge, perguntando se ele queria um café. Café? Numa hora daquelas, no momento só não esperado porque jamais imaginado, alguém tinha a petulância de nos interromper para oferecer um café? Em um segundo consegui ver todos os cafezais do planeta dizimados por uma praga terrível, que também se instalava no corpo humano, em especial no de pessoas que se ofereciam, com voz mansa, através de um café. E pior, se oferecendo em minúcias de intimidade: prefere forte? Nunca desejei tanto o desaparecimento de um ser. Mas a vingança veio de imediato, sem que eu precisasse concluir o serviço de meu instinto-assassino. A mulher de Jorge intercedeu: nem forte nem fraco, minha filha, ele só toma café em casa. Dali em diante ficou calado, sem graça pela resposta ríspida da esposa, e se manteve cabisbaixo, sem notar que seus olhos azuis criavam, naquele assoalho já sem sinteco, um novo mar para o mundo.

Fiquei sem saber para quem Jorge torcia, muito menos se me convidaria para assistir a um jogo do Flamengo e se por acaso tínhamos algo em comum. Exatamente às 15h50 sua mulher decretou o fim da peleja, sem a necessidade de acréscimos, frustrando toda a plateia feminina no local, que quase suspirou em uníssono pela bola na trave. Fui agraciado por ela, na saída, com um beijinho a distância: não poderia supor que eu estava entre suas piores ameaças. Jorge saiu de campo com um tchau coletivo, obrigado, gente, foi ótimo, causando lamúrias verbalizadas das suas novas viúvas que, longe dos maridos mas perto dos meus ouvidos, confessavam entre si: o que são aqueles olhos azuis? Jesus!

Naquele dia, apesar de ter voltado para casa mudo dentro do carro, não, não aconteceu nada, com o peito dilacerado por ter minha paixão desprezada, entendi como se iniciava uma religião, uma seita, um credo. Não sei se Jorge era Jesus disfarçado, mais uma vez ressuscitado, acho que não. Mas, desde então, espero sua volta.

O ELEGANTE TRAJE DA PERMANÊNCIA

Chegará em traje completo
como manda o figurino de bem-querer
ou trará rasgos no bolso esquerdo do paletó?
Usará abotoaduras, coletes e sobretudos
nas datas que se fizerem solenes
ou pedirá bainhas pelos desgastes do mal-querer?

Dormirá sem agasalhos ao meu lado?

Ele não tinha respostas prontas na mala
quando a porta se abriu.
Apenas veio com a roupa do corpo
e uma penca de sonhos pendurados
em cabides de lua minguante.
Pedi que entrasse: sem precisar tirar os sapatos.

Não acreditava em pijamas.

Tantos bordados e remendos depois
ainda hoje nos cobrimos
com o boa-noite da primeira vez
e dispensamos os chapéus
na saudação das desalinhadas intenções
aos desejos a serem novamente arrematados.

A felicidade é o vestido mais bonito do acaso.


Eu podia ver em sua pele, como se fosse um atlas escolar, os traços de um mapa a revelar com nitidez as imensidades de uma pátria. A cada passo que dava, no acaso de um passeio despretensioso pelo bairro, na busca pelo pão e leite de todo dia, derramava sementes de abacateiros, bambuzeiros, pinheiros, ourieiros até então nada interessantes a meus olhos e sabores. De que primitivas tribos vinham jacarandás, xixás, camboatás, jatobás a me obrigarem a aceitar uma naturalidade cidadã? Hoje sei que os jequitibás, manacás, quem sabe os araçás ou resedás de seus gestos, me ensinaram a ser brasileiro.

Sua boca, farta de cerejeiras, palmeiras, laranjeiras, quaresmeiras, viciou meu desejo que, entre a revolução e o nacionalismo, rasgou o passaporte de andarilho e fincou a bandeira da fidelidade partidária. Como querer amar outros oitis, buritis, muricis, cambucis, além daqueles que brotavam de suas ideias anárquicas de gozos clandestinos? Ninguém, depois do renascimento do prazer numa terra passageira mas comum a dois, seria capaz de recusar tantas jaqueiras, erveiras, macieiras, assobieiras.

De muito observar o jeito desengonçado mas sensual de seus quadris, aprendi a sambar aos pés dos benguês, juvenês, tarumãs, guianãs e a fingir achar bonito vê-lo abraçar os companheiros com tamanha intimidade. Também aprendi que o ciúme é capitão-do-serrado, aldrago, lapacho cuja flor amanhece e anoitece fogo, e que o melhor remédio para não se queimar é recostar nos galhos de um cedro, algodão-do-brejo, ipê-amarelo e deixar o vento passar.

Apesar das mãos pouco vividas, sabia contar personagens e proezas da história nacional como poucos, me fazendo dormir entre campos de aleluias, tabebuias, imbuias, tendo quase sempre uma palavra de fé ante deus inexistente. Sua crença perambulava entre expressões faciais pouco precisas, como se duvidasse daquilo que ele próprio colhia em seu quintal. Misterioso, vasto quintal povoado talvez por ecos de perfumes perturbadores de acácias, viscáceas, araucárias. Ou seriam coqueiros, castanheiros, pessegueiros altaneiros que lhe deram mais frutos que eu?

Jamais corri o risco de querer saber além do que deveria, preferindo contentar-me com a delicadeza do instante de um alecrim, angelim do que constatar a resistência desarmada de jaranas, imburanas, mutambas que provavelmente coloriram o seu passado. E do que me valeria a comparação, se paratudos, veludos, carnaúbas, baraúnas, assim como eu, não souberam prendê-lo às raízes? Quando deixou de ser visto pelos arredores da capitania a cuidar de marianeiras, figueiras, louveiras, goiabeiras, restou-me o consolo de não ter sido enganado: apesar de sua brasileira vitalidade, em momento algum escondeu ser também do mundo. Custei a acreditar que não mais o veria, esperando feriados a fio por sua volta, com o almoço servido ao ar livre, encostado no tronco de sombreiros, cajueiros, tanheiros, abieiros.

Mas estava certo. Ficou o tempo que jambeiros, ingazeiros, faveiros, salseiros necessitam para se tornarem inesquecíveis antes de desaparecerem. Dele não mais tive notícias, postais ou esperança de um exílio partilhado, quando traçaríamos planos de regresso e construção de uma família orgulhosa de seu país. Tampouco deixou pistas sobre sua inesgotável capacidade de amar uma terra que tão pouco lhe deu e nada reconheceu de sua elegância patriótica. Mas por nós e pela trajetória dos casais que honram o sotaque de suas paixões, mantenho a tradição de seguir a sombra de suas oliveiras, uvalheiras, seringueiras, paineiras por todos os dias da minha saudade.

AFORA

Sempre envelheci as horas em ti
Um do outro nascemos cansados
mas leves em merecer
o tempo plantado em nós.

Pela vida afora uma rosa
nos reconquista o olhar.

O INDEVIDO

Prazeres e amargores se misturam
no azeite denso da memória.

O que semeei no corpo amado
provei rascante em mesa alheia:
fui de quem o suor só exalava pedras de sal.

O que de fato floresceu
rompeu as fronteiras da alegria temperada
e me entornou o aroma de mais querer.

O desejo obrigou-me a regar o indevido
porque apenas no indevido posso manter intacto
o sabor que o outro não mais reclama.


O CRIME PERFEITO

Partiu sem deixar
sinal, bilhete ou vestígio
como o ladrão que para roubar
não precisa acender as luzes.

A casa era toda sua
o resto de coração também
mas morava tão dentro do silêncio
que pouco ou nada consentia.

A única peça esquecida
– uma camisa xadrez –
hoje é toalha de mesa
para a refeição diária.

Ainda ouço a porta se abrir.
Mas é apenas o ladrão.

EM MAIS NADA EXISTIR

Relembro o corpo do amor rompido
nervos desfiados, servidos
no banquete da nossa distância.

Como pode, por menor que seja,
uma alegria acabar-se grosseira
aos pedaços de em mais nada existir?

Os restos deste amor talvez se guardem
nos olhos das crianças que vimos crescer
e que, na mais pura inocência ou crueldade,
perguntam a que horas você vai chegar.

AQUELES

Aquele cinema não mais existe
mas ainda queimam em mim
as cenas de ciúmes cinematográficos.

Os olhos daquele desejo agora dormem
mas o sono denuncia
a embriaguez de vida.

Acabou-se aquela delicadeza de passos paralelos
mas as ruas continuam pedindo
a comunhão dos trajetos divididos.

Aquela certeza de vitória é passado
mas restam aplausos secretos
nos bastidores da gratidão.

O céu daquele abril nunca mais se deu
mas as tempestades de versos insistem
nas mãos eu agora só minhas.

Morreu aquela vontade de conquistar o mundo
mas a cada dia uma nova esperança escapa do fim
e exige janelas para respirar.

Eu não sou mais aquele
mas aquele ainda te ama.

Lembro bem, era outono e as asas do abandono ainda estavam encharcadas de chumbo. As encolhi, sem conseguir escondê-las, diante do inesperado reencontro. Era pouco, muito pouco, o tempo da nossa primeira distância.

Ele, ali, de repente, eterno, pés tímidos simetricamente sustentando o corpo magro, à minha frente, nada mais tinha a dizer. Eu, ali, no sempre, inchado, olhos inacreditados desesperadamente amparando os lábios solitários, à sua frente, proliferava palavras desenterradas do dicionário mais antigo do mundo: o amor bruto que não cessa. Sobre sua cabeça derramei uma chuva de papéis em branco que as mãos, em trêmulas, iam rasgando, instante a instante, palavra a palavra. Imóvel, aceitou com mérito e sabedoria a humilhação de minha dor. Eu chorei, por nós, pela inocência dos que creem na limpidez do amor, sem que ele tirasse os olhos decididos de mim. Havia acabado. Nossa primeira distância era também a derradeira.

Aos que passavam, nos corredores daquela biblioteca pública, não desejávamos o boa-tarde esperado ou dávamos a explicação devida, já que dois homens, à frente de tantos, despiam suas urgências diante de um passado interrompido. Nenhum deles teve a coragem ou a decência de perguntar por que nossas intimidades, aos prantos, trocavam lenços. Intrusos, o que eram, todos eles. Que esperassem para ver quem gritaria primeiro, que chamassem a polícia, que tão somente passassem, nada dissessem e rezassem. Ali, naquele instante de névoa e condolências, só cabíamos nós, numa cena que o cinema jamais ousaria reproduzir. Impossível corte, impossível enquadramento, impossível retomada. Eu flutuava em torno de uma esperança inútil. Ele futurizava-se, aguardando os letreiros subirem para encerrar a sessão.

Eram 16h53 quando o meu peito assinou a sua alforria e ele passou a ser alguém que podia, ao tempo que desejasse, aposentar parte de sua história e não contar ter sido protagonista do maior amor do mundo. Eram 16h54 quando o mundo passou a ser, para mim, uma aldeia de crianças invadida por lobos alucinados, onde ora eu gritava de pavor, ora eu avançava sem pudor ou remorso. Eram 16h55 quando o funcionário da biblioteca me encontrou despido no chão, acompanhado de bonecas, vísceras, carrinhos, sangues, e avisou que já era hora de fechar.

VINGANÇA

A quantas andas, velho cavaleiro
hoje deveras oco e longíquo
a galopar nos terríveis prados do arrependimento?

Terás frio?
Terás fome?
Por que tão só
se diante de exércitos vencidos?
A sombra de um soldado morto assusta?

Por que tamanho desespero
ao veres o surgimento de uma flor
que por toda a estrada insiste?
O aroma de uma lembrança desprezada atormenta?

Tantas perguntas para uma só resposta:
quando Deus e Diabo concordam,
o melhor é aceitar a sina do exílio.
Sim, muito triste
o sangue recusar o corte dos pulsos
e se manter no corpo
lentamente coagulando a culpa.

Bastante desolador
não poder fugir para aliviar
o assédio dos fantasmas que sobreviveram.

Não te desejo o mal nem o bem
mas um destino repleto de insônias.
Descanso impossível para a dor
quando às costas a capa pesa.
Repouso improvável para os pés
quando a porta não reconhece as botas.

Não soubeste honrar a coroa que de mim roubei
para legitimar o teu reinado
agora reles inutilidade de ruína sem escombros.
Segue as profundezas do teu deserto sem lua.
Quem sabe ali encontres
o falso perdão de outro que nunca traíste
mas que com tua própria espada
e em meu nome
na primeira curva se vingará.

 

A CANÇÃO DO ESCÁRNIO

Tua música é seca
notas de deserto em dor.
Vendes árias e sonatas nos mercados
por não saber regê-las.

És partitura adulterada pela brutalidade
samba de pernas flácidas e quebradas.

Murmuras falsos gemidos
e quando entoas, o que seja, sangras.
Não podes dividir instrumento ou cena
já que solas o egoísmo, descomparsa da alegria.

És melodia cheia de si, menor
fado desertor das melancolias.

Morres à balada do meio-dia
acreditando ouvir maestros – depostos.
Trilha sonora da discórdia
te cobres com a ladainha das mágoas.

És batuta desorientada pela vergonha
tango traidor dos dramas originais.

Comandas a orquestra invisível da burocracia
onde impera a flauta enferrujada dos prantos.
Piano sem dentes da aurora
arrastas o realejo intermitente das falsificações.

És cítara desenganada pelo tempo
xote da solidão vesga dos infortúnios.

Exibes às costas um violino sem cordas
sombra do oboé grosseiro da acomodação.
Pausa abrupta da indelicadeza
reproduzes vibratos, para o desinteresse coletivo.

És bumbo de couro amolecido
valsa oficial do desamparo.

Ofereces um coração de ecos desencontrados
cativeiro para as obras desprezadas.
Boca sem língua ou palavra
replicas em desacalantos os carimbos da corrupção.

És búzio sem a voz das sereias
tecnobrega das intelectualidades vulgares.

Espalhas certezas caladas na dúvida
trovões nascidos no ventre da ofensa.
Pólen semitonado do nada
fertilizas o sussurro promíscuo dos celulares.

És boi sem bumbá
bolero sujo da ingratidão.

Interpretas acordes e gestos dissonantes
sob a tradição surdina dos ternos impecáveis.
Grito de gozo abafado por travesseiros
tombo de lamento miúdo no altar borrado dos infiéis.

És verso sem métrica ou acompanhamento
ópera mambembe da passividade.

Tocas o detalhe incidental do vazio
progressiva decomposição dos compassos.
Pesquisas mantras e ruídos tribais
no ranger dos arquivos mortos da indecência.

És pauta para sentimentos mal-ajambrados
forró desnutrido de sensualidade.

Ensinas o do-ré-mi dos beabás
semifusa do sexo desinteressado.
Juras cantigas de roda nas impurezas
discurso profundo, para microfones desligados.

És tambor de mares desativados
hip sem hop, rap sem esperança.

A ti nenhum pulsar de terra
ou hino consolador para a miséria.
A ti nenhuma possibilidade de ritmo
para embalar a aridez da tua existência.

Ouve e conforma-te
com o batuque infinito da culpa no peito
algazarra de corvos, sobrepondo
a mentira da voz do teu arrependimento.

Ao fundo, muda e transparente
a canção do escárnio
rimada no silêncio desafinado
do meu perdão.

RELATO PIERRÔ

Lá se vão anos e carnavais
na liturgia de sermos o que resta:
móveis e objetos permanecem os mesmos.

Gestos surrados, suor envelhecido
folia encrustrada na pele
pela sujeira infiel do tempo.

O que é findo se arrasta
no cordão caiado de cinzas
do futuro que duvidamos.

As fotografias traem a juventude,
e a mínima decência do que fomos
não mais se entrega à festa.

Mas o perfume da acomodação
insiste em manipular a fantasia:
móveis e objetos permanecem os mesmos.

– A casa precisa apenas de uma nova pintura.

ARTESÃOS

Trançamos nossos destinos
na cestaria simples de encontrar.

Criamos admiradas coleções
no inspirado ateliê do dia-a-dia.

Mas as mãos que nos sustentavam
trocaram o talento pelo cansaço.

Desaprendemos a arte dos nós apertados
desfiamos a trama dos moldes perfeitos.

Agora, por tradição ou esperança,
repassamos aos jovens aprendizes
o ofício de acreditar, sem garantias,
no mistério da beleza passageira.

QUANDO O TEMPO DIZ SIM

O que não pude ser amado
me amei.
Carinhos no espelho
ante os chicotes do mundo.

Alguém me ensinou a ser breve
quando de meu amor duvidassem.
Terá sido meu pai?
Os caixeiros-viajantes de minha mãe?
Talvez os hóspedes do sítio de minha avó:
a eles eu ouvia mais que ao susurro dos livros.

Pouco importa quem foi,
mas a esse alguém agradeço em orações.
Cresci manso, mar tranquilo
porém ao fundo olhos bravios,
correnteza que engana a marujos e saveiros.
O tempo sempre dependeu das condições exigidas.

O colo que perdi
comprei nos comércios.
A vida que sonhei
por mais sonhos vivi.

Companhia para astros solitários
no céu ou na TV, mais um
na multidão apressada de cada dia
em ser mais multidão.

O medo que senti
venci sem deixar de herança.
O aplauso que mereci
repousei no passado.

De cada abismo, uma curva
dos finais felizes, recomeços.
O que não pude amar
amei.

Amo tuas rosas pálidas, culti vadas a água e ouro em calmos jardins. Ver-te delas cuidar ou de ti lembrar tocando-as pela manhã me dá a confortável esperança de mais um dia. Dias que serenamente coleciono, a meu jeito e costume, em forma de verso. Amo cada pétala que estranha mas não renega a proteção dos espinhos, cada espinho que desafia mas respeita o poder inabalável da haste, cada haste que proclama mãe a terra onde nasceu e que garante a suntuosidade de uma rosa diante da pequenez do mundo. E é esse poder inabalável da haste, que admite a vaidade das pétalas e permite a ambição dos espinhos, que me faz grande o suficiente para amar a palidez de tuas rosas. O poder inabalável da haste, que me faz grande o suficiente para sustentar cada tua partida.

Passo o tempo, a mim concedido, decifrando os teus mistérios de descobrir, nos desertos do amanhecer, tantos vastos roseirais. Sequer desconfias que as rosas que pensas serem um milagre divino brotam das ranhuras suaves do oeste dos teus olhos, mareados ao dizeres: “Vê, as pétalas formam pequenas ondas”. Enquanto tu, em meu universo de quietudes e sobressaltos, a inteireza do mar.

A ti falo, reconhecendo que distante não me ouves. Mas falo agasalhado nesta fria manhã, cercado por tuas rosas pálidas que se mantêm firmes na missão de saudar a natureza e regar com alegria a minha saudade. Se partes, estranhamente renasço mais humano e faço da desolação uma possibilidade de poesia para dois. Tenho comigo a obrigação de convencer a espera da certeza de uma nova chegada, como o porta-retratos que, por mais envelhecido, não desiste da cabeceira. Portanto, não serão um ou 300 mil adeuses que me farão desistir do nobre princípio de te amar, não serão um ou 300 mil adeuses que me farão desistir de esperar 300 mil chegadas. Porque para 300 mil adeuses haverá um e só abraço a abençoar teus passos e expectativas, um só e abraço a querer 300 mil chegadas, como se a última fosse então a derradeira.

Não há consolo ou ilusão: na distância que provamos permaneces, no mínimo segundo, no mínimo detalhe, ainda que ao entendimento alheio essa revelação soe banal. Sim, é banal, como é banal saber que, se não mais chegares e eu não mais puder ser teu, pouco importará, porque em cada vez eternamente fui. Deveras banal, diriam os poetas e filósofos oficiais. Com eles eu concordaria e agravaria mais a minha pena, ao confessar que não há vento, catástrofe, velhos deuses ou novos amores que possam ameaçar o reinado que em ti conquistei. Banalidades e grandiosidades que nos aliançam vida afora, a despeito de quem duvida da lenda chinesa de que um fio de prata invisível une duas pessoas que nunca se viram mas que se pertencem, e que em alguma primavera se encontrarão e se reconhecerão. Nos reconheço, porque sei como alimentas tuas rosas pálidas e de que fonte trazes, secreto, a água e o ouro que as tornam a tua herança.

E quando vais, no primeiro trem da madrugada, levas contigo o meu aceite. Na bagagem, nenhuma minha fotografia, mas uma do teu rosto, para nos momentos difíceis olhares a tua própria beleza e recordares que por ela roubei todas as montanhas, sequei todos os rios, desafiei todas as tempestades, vendi todos os portos que conheci. E jamais me arrependi ou me senti só ao final dos cansaços. Se diante de longas ausências – cais sem a promessa de barcos –, é da tua beleza que recupero mares e notícias. E por ela venci e venço ao que me pareça tão menor. Quando tudo for impossível ou pouco belo, com a tua beleza consola-te e dá um passo além.

O mundo é grande demais e alguém precisa desbravá-lo de verdade. Que sejas tu. Marinheiro de desejos audaciosos, soldado das batalhas de travesseiros, filho de minha saudade, pai de minha esperança, amor de todas as horas. Estarei sempre contigo, fruto do poderoso milagre dos encontros duradouros: com teus olhos verei novas paisagens, conhecerei novos povos e visitarei amigos que, há tanto não vejo, enquanto com outros corpos intimamente estiveres. Se é meu o delírio de te esperar, é teu o dever de dar à existência um pouco de aventura e encantamento.

Na ausência, eu poderia morrer ou me fazer maior. Faço-me mais teu e em teu nome batizo pagãos na rua e posso crer que pensamentos não se perdem quando parecem deixar de existir. Não, não me refiro a memórias, mas à permanência. Já sei que, por mais fortes que sejam a intolerância e o desprezo, tudo o que sinceramente doamos ou recebemos sobrevive. Por isso, ainda que este amor não interesse à humanidade, eu continuarei te amando, sem medalhas, com honrarias, sorrindo às tuas rosas pálidas, levemente suspeitas de terem envelhecido, suspensas na varanda de um tempo partido por uma distância sincera.

E não te assustes se em tuas andanças ouvires falar de um homem que, no desfecho cotidiano das madrugadas, senta-se no banco de uma estação de trem desativada, com um cesto de rosas pálidas no colo, e não aceita que os poucos meninos e as breves andorinhas que ali circulam as olhem com tristeza ou falta de beleza. Esse homem sempre serei eu. Feliz por acreditar que a qualquer momento mais uma vez chegarás, para uma nova outra vez partires ciente do dever cumprido: plantaste em mim a essência da generosidade.