Comentários do poeta

CASA DE ALGAÇOS: O MAR DESCONHECIDO

Antes de mais nada, é preciso confessar: como homem, não sou próximo do mar. Prefiro os mistérios das serras, das florestas, dos matos. Mas como poeta, o mar é uma referência constante em meu trabalho. Por conta do poema “Índico”, que consta no livro na parte dedicada aos oceanos e que até hoje é um mistério para mim – jamais estive em algum local banhado por ele -, fui dar uma volta nos meus cadernos para rever a minha relação com o mar. Vasta relação. Alguma coisa nesse momento me disse: é preciso nascer um livro. Como a poesia é soberana em minha vida, obedeci.

Garrafas e mensagens
A primeira lembrança, o primeiro sentimento que guiou a construção do livro foi o fato de, quando criança, eu não gostar de ir à praia. Mas como era um evento familiar dos fins de semana e das férias, não havia como escapar. Eu ia. E a única coisa que me fazia dar atenção àquilo tudo era o fato de desejar, de forma quase violenta, um dia encontrar à beira uma garrafa com uma mensagem dentro. Eu não sabia o que era poesia, mas já a buscava em todos os momentos, acho. A garrafa jamais chegou e, quando fui pensar o livro com a designer Heliana Soneghet Pacheco, eu só sabia que cada leitor teria o que eu não consegui: sua própria mensagem dentro de uma garrafa que viesse acoplada à estrutura física do livro.

Casa de algaços foi, talvez, o livro mais rápido de ser montado – às vezes, o ritual se estende um pouco, fico sempre à espera que a poesia me mostre o caminho de mostrá-la. Mas dessa vez foi tudo muito rápido, como se fosse um livro que já estivesse dentro de mim à espera do chamado. Na primeira parte, “O mundo é mais mar que mundo”, apresento minhas dificuldades e encantamentos com o mar. Lá estão as sensações de estar sobre e sob as águas, algumas pequenas histórias de pescadores que conheci, também uma parte que aborda de maneira indireta a loucura – o mar tem, para mim, algo que me remete à loucura de ir, algo meio sem volta, difícil explicar. Os poemas dessa parte do livro também são um pouco complexos. A segunda parte, “Mar brando”, traz os poemas de amor serenado, os bons encontros. Na terceira, “Mar avesso”, o amor conturbado, mas que, embora acabado, fica em algum porto. A quarta parte, “Aos grandes mestres”, dedico um poema para cada oceano, como se com eles conversasse. Na última, “Dois portos para um só cais, pequeno”, a minha relação com o mar infantil: primeiro no Leblon, mais cotidiano, depois na Barra da Tijuca, mais ocasional, onde acompanhava meu pai às pescarias que eu tanto abominava, mas que tentava não deixá- lo perceber.

O título original do livro seria Poemas costeiros, que acabou virando subtítulo. Achei que precisava resumir no nome do livro a minha necessidade de construção com o que eu posso entender como mar. Daí Casa de algaços. Eis o mar que pude.

Projeto gráfico e lançamento
Heliana foi mais uma vez brilhante (quando ela não é?) e fiel tradutora da minha necessidade de esclarecer que quando penso ou sinto o mar me vem a cor laranja, não azul ou verde. Talvez influência do poema “Índico” em que digo que as águas são avermelhadas (serão mesmo?). Daí as divisórias nessa cor para fazer a passagem dos capítulos e os origamis criados pelo artista Pedro Leopoldo da Costa.

A disposição dos poemas nas páginas – a maior parte sem títulos – passa a ideia de flutuação sobre as águas, mais uma solução perfeita da Heliana, que também descobriu, em Londres, a rede que cobre parte da capa, transparente, em papel vegetal, como sugeriu a produtora gráfica Sandra Amaral. Agradecimentos a Paulo Corrêa, pela montagem das capas, e a Fernando Garcia, pela foto ao final do livro.

O lançamento aconteceu no dia 30 de junho, na Livraria do Museu da República, no Catete/RJ, um belo sábado de sol, encontros e reencontros.

Obs.: quem quiser conhecer todas as mensagens das garrafinhas é só clicar em “Mensagens” em Obras Publicadas.