Mensagens das garrafas

Para cada livro, uma mensagem particular do poeta. Todas, aqui, reunidas.

Dentro do mar
sempre olhos fechados
sempre boca aberta:
tudo cabe no peito.

*
Nos olhos do mar
as lágrimas são navios perdidos.

*
Para o mar não há chegada ou partida
apenas homens que precisam de navios.

*
Se o mar não está para peixes,
passarinhos.

*
Não é preciso mar
para ser marinheiro.
Apenas coragem.

*
O sol é a febre do mar.

*
Quando a lua
sobre o mar cai
sob nós trilhas.

*
Ao céu eu chegaria.
Ao mar, somente tentaria.

*
Se você possui um inalcançável segredo
deita-o numa garrafa sobre o mar.

Finja não reconhecê-lo
nas mãos inesperadas de um dia.
*
Através das ondas
o mar conquista a terra:
a sedução de vir sem nunca chegar.

*
Quando o mar repousa
um buquê de algaços à beira
quer casar algum dos seus filhos.

Aceitará o meu pedido?

*
Às estrelas do mar
o céu da beira.
Nas areias do mundo
a poesia descansa.

*
Algumas mensagens só devem ser lidas
de costas para o mar.
A imensidão desconhece juras e perdões.

*
Matamos amores
enterramos juras.
Mas a poesia
por conta própria
salvou nossos mares e navios.

*
Da terra viemos
para no mar nos reconhecermos:
peixes ou pescadores?

*
Ao receber esta mensagem
já serei uma concha.
Mas ainda assim responda:
mar ou deserto o antigo amor?

*
Quando chove
o mar é tão-somente
o quintal florido do céu.

*
Pelo teu amor de esperas e navios
eu mar morreria.

*
No Atlântico te encontro
Do Pacífico te escrevo
Pelo Índico te desreconheço.

Quantos nomes ainda nos separam?

*
História se conta do que existe.
Os pescadores inventam o mar.

*
Onde teus mares se perderam
aqui
onde perdidamente descanso.

*
Nunca saberei te receber em meu perdão.
Entrega-te ao mar.
Ele não distingue lágrima de sangue.

*
Se o mar cabe no mundo
o amor cabe numa mensagem.
Enquanto eu te amar
naufragado em ti sobreviverei.

*
O menino que fui temia o mar.
O rapaz o rejeitava.
O velho consola o menino e o rapaz.

O mar não nos reconhece.

*
Por merecimento
o mar seria de seus olhos.
Por tanto
meu.

*
As ondas crescem
para alcançar os balões.

*
O sol impõe-se a milhões.
O mar, aos que o procuram.

*
Vivo amores calmos da beira
em que a tempestade é flor para os cabelos.

Mas, só, descanso
nas grandes correntezas.

*
Vistos do colo de Deus
os navios são pétalas sobre o mar.

*
De tão profundo
meu amor criou mares.

Quando não mais reconhecê-los
deita-os na melhor memória
longe, bem longe dos desertos.

*
O velho farol emite sinais de cansaço.
Mas firme espera os desejos
de quem nele ainda mora.

*
O menino salva as conchas que o mar não quis.
Ainda não sabe o que é belo morrer.

*
Na plataforma, os homens buscam
petróleos e riquezas.
Visitante, a ocasião me faz ladrão:
o sol agora dorme na palma da minha mão.

*
A mensagem que escrevi
por outro será assinada.

O mar desconhece a autoria dos amores.

*
A rede trouxe alimento e relíquia.

Alguns homens moram no fundo do mar.

*
Espumas abençoam meus pés descrentes.

Como vim parar no mar
se procurava o tempo finito de um beijo?

*
No areal
um castelo
depois um adeus.

O mar é sempre distância.

*
Respiro fundo o horizonte
e acalmo a lágrima
fechando olhos e peito.

Uma vida sem esperas
é um navio sem mar.

*
Pesqueiro
Saveiro
Veleiro
O mundo inteiro
desde que eu, para ti, mar.

*
Por ti ergueria pontes
entre Atlântico, Pacífico e Índico.
Por ti devolveria o mar
que ao te ver roubo do mundo.

*
Dobro cabos e costas.
O mundo é pequeno demais
para sermos distantes.

*
Uma espera requer mensagens e promessas.

O meu ainda
abraça
o teu para sempre.

*
Todo mar, se sagrado
compreende desertos.
Onde nos perdemos
floresceremos.

*
Cumprimento o mar à distância.

Ele não acataria saber,
somos o mesmo adeus.

*
Deixo o mar para depois.
Nesta vida, preciso entender
por que a fome faz do homem um pescador.

*

Na rede, a pesca do dia:
nem mais nem menos.
Jamais enganamos o mar.

*
Partir é lida
Voltar, promessa.

Jamais se dá adeus ao mar.

*
Planto árvores no alto-mar do desejo.
Amar requer a ousadia de acreditar.

*
O meteoro caiu no mar desavisado.

Por que amores e adeuses chegam sem avisar?

*
Aqui quase confesso o amor
por toda a vida despistado:
à superfície do mar
guardei em sargaços
a sombra do teu nome.

*
As nuvens são ondas que preferiram a calmaria.
Quando chovem, lembranças.

*
Não era o balé perfeito das gaivotas.
Nem a dança inocente das borboletas.
Mas diante de ti, em vôo cego,
meu peito quis conhecer o mar.

*
O mar é o exílio de Deus.

*
A poesia precisa de alimento.

O mar é apenas uma isca para a imensidão.

*
A imensidão criou o universo.
O azul pariu o mar.

*
Amar sem confessar o amor
é construir um barco
e jamais apresentá-lo ao mar.

*
Quando o mar invade a terra
não quer tocar os pés
mas os passos dos homens:
por que sempre partem?

*
Do mar recolho
mensagens e amores entregues.

Não sei com quem
acabo de me casar.

*
As ondas derrubam barcos
mas diante dos teus olhos paralisam:
a dureza do cais sempre vence.

*
No mar não busco
o mistério da perfeição.
Quero-lhe a brusca tempestade
como companhia para os olhos.

*
Na ponta arredondada do mar
repouso o barco que fomos.
Exige cuidados
a delicadeza desta saudade.

*
Um amor sem recomeços
é mar sem ondas.
Paisagem que, sem saudade, morre.

*
Acreditei em tudo que ouvi.

Aquilo que o mar não me disse,
a maior saudade que já senti.

*
Guarde a ossada dos barcos
como lembrança do que fomos.
Indestrutível fortaleza de névoas.

*
Um rosa boiando à beira.

Aquele amor
– aqui guardado em silêncio –
jamais perderá as amarras.

*
Desertos afundados
Mares soterrados.

A beleza de alguns amores
reside nas confissões desencontradas.

*
O porto que imaginei jamais existiu.
O que eu via – um descanso –
era a fúria repousada do mar.

*
O mar não quer lavar as pedras do cais.
Mas roubar-lhe os nomes dos amores escritos.

*
No mar, anoto perdas e ganhos.

À beira, a garantia de um só nome.

*
Um poema feito na areia
faz do mar todapoesia.

*
Uma gaivota descansa entre algaços frescos.
Fita o mar, mas a fome é de horizontes.
O ninho é passado distante.

*
Lancei as amarras ao vento.

Se ao mar, a velha chegada
Se ao céu, o novo destino.

Quando finalmente construiremos um lar?

*
Entre o mar e o céu
prefiro as cordas do horizonte.
Sobre elas me deito
com elas me enforco.

Haverá destino
para quem não reconhece a beleza?

*
Perto do mar
o que não é mar
mareia.

*
Pedi-lhe um gesto nobre.

- O primeiro peixe que devolvi ao mar.

Sempre será perdoado dos pecados mais vis.

*
Não vemos o mar.

Com a ponta dos olhos
o tocamos.

*
Desenho no mar o destino do amor.

Não, nada passa.
Tudo está porque tudo parte
para voltar ao que verdadeiramente é.

Guardo as ondas no peito.

*
Se o nome do mar é imensidão
como verdadeiramente se chamam os teus olhos?

*
Com meu desejo navegador
desenho um mar a perder de vista.
O destino dos barcos
apenas sedutoramente rabisco.

*
Durante o dia dormem.
À noite se acendem.

Os faróis são as estrelas
que os homens puderam inventar.

*1
Contorno costas
Adentro grutas
Recebo ondas.

O mar é o gozo de Deus.

*
Me pede uma definição para o mar.

Todos os dias, as mãos de Deus
choram o mesmo poema.

*
Proliferam-se mares em mim.

O trabalho da poesia é construir portos.

*
Os nossos estilhaços
eu colo com água do mar.

A beleza consola a poesia partida.

*
Quando quer brincar de mar,
Deus chove.

*
O mar me deve explicações:
aceitou todas as partidas que eu não quis.
Também lhe devo explicações:
aceitei todos os algaços que ele não quis.

*
Ao mar darei
o meu último minuto de silêncio.
No mais breve barco
aprenderei a amá-lo.

*
O píer é o tapete voador
dos verdadeiros marinheiros.

Vá.

*
O píer é o primeiro passado do mar.

*
Minha cabeça mareia.
Os peixes de meus pensamentos
se aproximam dos pesqueiros desejos.

*
Minhas orações passadas
estão no fundo do mar.

Belo cemitério
de dúvidas e agradecimentos.

*
A caneta, remo
O papel, mar.

A poesia, o destino.

*
Digo olá
Ouço adeus.

O mar sabe mais de mim
que nós mesmos.

*
A menos de dez metros
os olhos não sabiam:
mar ou casa?
Deles nunca mais tive notícia.

*
À noite, o mar não dorme.
Aprofunda-se na escuridão do silêncio.

*
Meu coração é porto
para desejos distantes.
A pele espera caravelas.

*
Espero-te por toda uma vida.
Trarás desculpas ou a mala cheia de mar?
Naufrago-te por toda uma espera.

*
A distância até a praia
depende da sede dos olhos.

*
Toda vez que chove
o mar, satisfeito,
fica mais rico.

*
Agora distante
o mar manda lembranças:
o orvalho, em ondas, se faz.

*
Até onde não existe
o mar renasce.
Quem jamais o viu,
de tão grande,
o toca em pensamento.

*
Sempre sonho com o mar próximo.
Ondas gigantes, barcos mínimos
e a coragem de vencê-lo.
Sempre acordo em algum porto distante.

*
Sopremos novas caravelas ao mar.
Precisamos redescobrir o mundo.

*
Qual a bandeira do teu barco?

A minha, rasurada saudade.

*
O céu do Atlântico guarda o destino
dos barcos que por ali passam.

Nem sempre chegamos.

*
Quando o mar amanhece triste,
o céu, cúmplice, esconde o sol.
Ventos e marés desconhecem
acordos ou generosidades: não.

*
Falsos amores, falsos adeuses
um dia aparecem na beira
em forma de algaços.
Não somente tesouros:
o mar também guarda mentiras.

*
Todos os dias
o céu redesenha o mar
para a magia da vida acontecer.

Sejamos a lua, grande amor.

*
O verde do mar
é a lama esperançada do céu.

*
O azul do mar
é a pétala caída do céu.

*
Centenas de canoas
atracadas no horizonte.

Meus desejos mais simples te aguardam.

*
Por mais deuses que sejam
os deuses não resistem à alegria.
No carnaval, o céu derrama
confetes de sol sobre o mar.

Peixes e pescadores que não voltaram
agora se fantasiam de luz.

*
O mais correto seria desistir
porém o mar insiste: parta.

É longe e sem volta
a ponte que une o Atlântico
ao resto do mundo.

*
No cemitério de mares
estão ossadas de peixes e sereias.

E as pétalas
de uma saudade que pulsa.

*
As plantas da casa pedem água
como se do mar viessem.

Seriam minhas samambaias e figueiras
barcos que me seguem?

*
Vasto o mar que avisto.

A tua saudade se fragmentou
na imensidão do que se perde de vista.

*
Porto a porto
procurei em vão
naus que me levassem.

Hoje, velho, sei:
nunca houve mar.

*
Bordo o mar com algaços
e sonhos particulares.

Ouvem o canto das sereias.

Mal sabem que a minha alegria
compreende lamentos.

*
Era um homem extremamente reservado.
Quem poderia saber que guardava
o mar no bolso do paletó?

Quando morreu de espanto e silêncio
os outros homens deram-lhe o nome de Deus.


*
Traiu a calmaria
roubando barco e pescador.

A tempestade é a amante insaciável do mar.

*
Os homens contam dias e noites.
O mar, homens e barcos.

*
Conta-me uma história
que te entrego um poema.

Pescadores e poetas
vivem do que fazem existir.

*
Deixei que ele fosse
porque eu havia como esperar.

Diariamente na manhã do mar
acendo um sinalizador ao céu.

*
Perfuram as profundezas do mar
para encontrar raízes.
Um dia, ferirão os pés de Deus.

*
Seus olhos comportam
uma frota de encouraçados azuis.

Sobre o mar
a aposição da beleza.

*
Valem o tempo de um dia
as leis do mar.
O que ontem apaziguava
hoje revolta.

Quantos oceanos carregas no peito?

*
O mar só é grande
porque sabe caber inteiro
numa mensagem de amor.

*
Viria me ver
não fosse o tempo apressado
e aquele mar que não sabe vencer.

Naufragar pode ser o barco mais seguro.

*
Na canoa da infância
replanto gérberas e hortênsias.

Invariavelmente colho o mar.

*
Dou versos ao mar.
Dá-me peixes.
Não é poeta.
Não sou pescador.
Somos a poesia de acreditar.

*
Um rastro avermelha o mar.

O sangue dos golfinhos
credencia o homem à extinção.

*
O velho que hoje sou busca compreensão
no marinheiro que jamais fui:
o mar é sempre jovem.

*
Âncoras ao mar.

Tanta tempestade entre nós
que ferimos o Cruzeiro do Sul.

*
Metrópoles submersas no peito.

Em que correnteza sorriu
pela primeira vez sozinho para mim?

*
Tantas ondas e sobrevivências
para nada.

Das raízes do mar
colho a mesma flor da espera.

*
Calmaria ou tempestade
a vida vale o barco.

*
Apaziguo ânimos e ondas.

Os homens e os mares
nem sempre crescem.

*
Volte fingindo não saber
por que voltou.

É mais fácil acusar o mar
que te aceitou passageiramente peixe.

*
Um dia nos encontraremos.
Eu que te escrevo
tu que me lês.
Enquanto isso acreditemos
na finitude do Atlântico.

*
Um dia nos encontraremos.
Eu que te espero
tu que me esqueceste.
Até lá acreditemos
nas pontes invisíveis do Atlântico.

*
Temo o mar, mais ainda esquecê-lo.
Na antessala da casa das grandes águas
escrevo sempre um poema futuro.

*
Todos os dias
um trem percorre
o fundo do mar.
Correnteza ou maré?

*
Todas as noites
um trem percorre
o fundo do mar.
Calmaria ou tempestade?

*
O mar não sabe
se mãos ou remos.
Acariciado, abre-se
ao destino de chegar.

*
Os raios são
as idéias iluminares do mar.

*
O que quer de mim
este suor a escorrer dos dedos?
Poemas? Não, barcos.

No verão, o mar acorda em mim.

*
Quando dormimos, ele não existe.
Se acordamos, o inventamos?
Diante do mar
o homem é mais deus do que imagina.

*
As marolas são
os risos sarcásticos do mar.
As vagas, o aviso.

*
Entre o sol e a lua
armo a rede do meu mar:
desejo dias tranquilos
para os que em mim vêm sonhar.

*
O mar é a rede que estendemos
entre a beira e o horizonte.
Nossos sonhos, o embalo do vento.

*
Salgo os olhos no mar.

A dor também pode ser bela.

*
Belo ou imenso?
Lembro-me:
o mar é substantivo.

*
O mar é pasto infinito.
Tão infinito que, um dia, universo.
As estrelas já foram conchas.

*
Meu poema é porto
singelo
para o mar dos teus olhos
profundo.

*
O alto-mar
vistoria a costa.

Meu ciúme acorda
suas praias tranqüilas.

*
O mar tem lá seus mistérios.
Cabe todo na lágrima
que diante dele manifesto.

*
Ao mar devo satisfações.

De costas, o imagino
De frente, temo roubá-lo.

Ao mar devo poemas.

*
Quando uma lágrima
representa todo o mar
é sinal de amor:
águas abrigadas.

*
Marítimo sentimento.
O verdadeiro amor resiste
a anzóis e adeuses.

*
Estou em cada letra desta mensagem.
Leia em silêncio, com os olhos do mar,
a nossa primeira intimidade.

*
Há vezes, estou cá com meus botões
outras, nos avessos dos corações.
Mas o mar sempre está lá
perto distante guardado
no estaleiro da imensidão.

*
Acordei com o mar no peito
e nele mergulhei.
Lá no fundo, o reino de um coração
que sem medo ou futuro ainda pulsa.

*
Para ser imenso
bebi todo o mar.

Os olhos me fazem acreditar.

*
Mar é imensidão.

Gosto de dar nome
ao que já tem nome
para pensar minha
toda a beleza do mundo.

*
São de areia
os pés de Deus.

*
O mar chegou aos pés da cama.
Bom-dia, meu amor,
o mundo é mais uma vez teu.

*
Lá fora, o mar ecoa.
Aqui, me encontra.

*
No fundo de seus mistérios
o mar é apenas um gesto:
o bom-dia de Deus.

*
Coleciono verbos flexíveis
entre substantivos estanques.
Voar
entre a vida e a morte.

O mar,
inesperado adjetivo e rede.

*
No alto do despenhadeiro
a onda tenta me buscar.
Quando o mar assentar
me darei: flor de águas
no deserto do teu peito.

*
Minha pele arrepia
como quem recebe maresias.
Há sempre uma sombra de mar
mesmo na maior das distâncias.

*
Para as viagens amorosas de curta duração
recomenda-se vistoria nos barcos.
Para as de longa duração,
mergulho.

*
Mergulhou tão fundo
que dentro de mim se desfez.
Era um homem de grande coragem
mas com sentimentos de areia.

*
A beleza merecia ser vista
pela própria beleza.

As sereias inventaram os espelhos.

*
As horas verifico no mar:
ficar ou partir?

No amor
os ponteiros, de água,
nem sempre apontam o caminho.

*
O mar me convida a vê-lo.

Declino.

O mar sempre rouba meus olhos.

*
Em tempestade
o mar é o devaneio do tempo.
Em calmaria
pensamos na existência de deuses.

*
O mar apontou o caminho: a terra.
Para conhecer o mundo dos homens
deixou os peixes para trás.

Um pescador não escolhe o seu destino.
Apenas um dia volta ao que não sabe.

*
Agradeço o mar recebido
também a herança
do cemitério de embarcações.

À tona ou profundo
o amor é sempre azul.

*
As espirais, ondas
O branco, espuma
As linhas, horizontes.

Meu caderno é o mar.

*
Vejo sombras no mar.

Longas, as asas da noite.

*
Vejo clareiras no mar.

Vasta, a fome da manhã.

*
Me concederia a dança
se música não existisse?
Me convidaria ao mergulho
se mar não houvesse?

O amor se alimenta
das próprias suspeitas.

*
No avesso do mar
alinhavo o naufrágio dos barcos.

Todo adeus é também
um enfeite do tempo.

*
A primeira passada é carinho
A segunda, aviso
A terceira, tempestade.

O vento, no mar,
é amante imprevisível.

*
À deriva
sei como voltar
mas perco-me.

No mar
os pés são livres.

*
Onde estarão os barcos
que viriam me buscar da saudade?

Sou uma ilha repleta de histórias
mas sem mar.

*
Os livros do mar
ficam guardados
nas estantes do vento.

Sempre passageira
a sabedoria de chegar e não partir.

*
Poemas à deriva
Sentimentos salvos.

Quando ele partir
escreverei âncoras.

*
Na espera, um segundo
tem a duração do mar.

*
Para o mar
não há início ou fim
apenas travessia.

Entre vírgulas
escondo amores.

*
Projeto mares sobre a escrivaninha.

Uma onda acaba de levar
o poema que nasceria.

*
Se aquele mar me pertencesse
a ele eu também pertenceria.

Pertencer é maior que amar.

*
A correnteza passa.

A lua teme
a serpente de águas azuis.


*
Alguns séculos depois
o mar era
absolutamente o mesmo.
Nós, absurdamente estranhos.

*
Sopro ondas para cobrir
a velhice dos barcos.

Quem um dia
me atravessou pelo mundo
hoje dorme no fundo do mar.

*
Grave, a voz dos mares
vem dos céus: trovões
decretam o fim do dia.

*
Vôo sobre o Atlântico
até iniciar o Pacífico.
Mas o mar insiste
em ser um só:
meu.

*
Velho, receberei o mar que neguei.
Já não haverá tanto deserto
a ser percorrido.

*
No pátio da marina
o cemitério de barcos.

Um gato vigia:
a noite gosta de roubá-los
para velejar fantasmas e segredos.

*
Quando Deus herdou o mundo
de tão encantado com o mar
construiu o maior dos barcos
para chegar e ir:
o pôr-do-sol.

*
Eu e o mar
combinamos imensidões.

Meu corpo em suas águas
a única eternidade possível.

*

Escrevo sobre o mar
em cadernos de água.
O que foi escrito, não mais.

Assim combinamos
a nossa mútua eternidade.

*
Com areia molhada
moldo o corpo desejado.

Tão perfeito
em fluidos e perfumes
que a onda também o quis.

Até um dia, grande amor.

*
O mar me convida a dançar.
Repouso o olhar no horizonte.
Abro os braços para as ondas.

Mergulho.

*
Fui sereno
ao fechar a porta do cais.

O navio que parte
é o mar, vazio, que fica.

*
Mais belo que o mar
só o desejo de mais mar se ter.

(Deus adora elogios).

*
Causa-lhe arrepios
deveras insinuantes.

A tempestade é
a melhor amante do mar.

*

Tranço cabelos e ondas
em mergulho consentido.

O que eu procurava
e não encontrei?

O carinho nasce e morre em si.

*
Nele, o silêncio é mais silêncio
os gestos, mais pausados
os pensamentos, mais agudos.

Sob o mar entendo
o que é morrer de esperas.

*
O mar se nutre de maufrágios.
O adeus, de rotinas.

*
Mar poderia
onde areal se fez.

Mas a delicadeza
imprópria, improvável
de uma flor
nos acompanha.

*
Como se dobrassem suas pernas
Como se cortassem seus cabelos.

As ondas fatiam a imensidão do mar.

*
Abaixo do mar
um outro mar existe:

o silêncio inicial do mundo.

*
Primeiro, o mar
Depois, lá adiante,
o resto de tudo.

Quem criou o mundo
por muito tempo navegou-se.

*
Aquela saudade
agora descansa
no fundo do mar.

À superfície
a ilusão desafinada de um talvez
no breve balé dos cardumes.

*
Daquela saudade restou
a insistência de uma pétala
sobre a superfície.

No mar cabem todas as sombras.

*
Não meço mares
para esconder saudades.

Deito-as sobre os rochedos
e choro.

*
Sobre ondas andarás
Sob elas te ampararei.

O céu é possível, grande amor.

*
Deslizo as mãos
sobre os cabelos distantes
e acalmo a correnteza.

Também o mar reclama a sua partida.

*
Se encurtássemos o mar entre nós
onde repousaríamos os desertos
cinicamente construídos?

Só nos resta aprender
a erguer pontes sobre o imponderável.

*
Da escotilha avisto
promessa de terra.
Apronto o bote, mas fico.
A solidão, tantas vezes, me basta.

*
As mãos amparadas no cabo
não impedem a partida.
Os olhos, cúmplices do mar,
talvez.

*
Rebentação é desabrochamento.

O mar, todos os dias, uma rosa.

*
Uma voz desconhecida alta se levanta.
Velas e bandeira a acompanham.
Só, na imensidão do Atlântico,
meu barco busca descobrimentos.

Pena o mundo ser esta ilha.

*
- Mais se sabe do mar que do céu.

A ciência, coitada, acredita.

*
Adentro o mar
até meus olhos tocarem o horizonte.

Peixe, já não sinto saudades.

*
No mapa, chamam-lhe oceano.
À beira, mar.
No fundo, silêncio.

*
Entre mim e o resto do Atlântico
um quebra-mar castanho e firme.

Seus olhos inventam, aceito,
novas fronteiras para o mundo.

*
Uma pérola bóia
perdida na superfície.

A liberdade
quase sempre
é rota solitária.

*
Nada mais compartilhar
além da imensidão.

Se do mar
não bastar o silêncio,
parte.

*
Tentam aprisioná-lo em
telas de cinema
álbuns de fotografia.
Inútil.
Quem dera o mar
coubesse em si.

*
O mar
mais seduz que convida.
Mergulhar
nem sempre é uma escolha.

*
O canto do mar
seduz mais que o do céu.
Mergulhar
é mais perigoso que acreditar.

*
Falo sentimentos
pela língua do mar.
Navego amores e palavras.

*
Faltam-me palavras
Sobram-lhe mares.

A poesia prefere o silêncio.

*
O sol não se vai
pela chegada da noite.
Lentamente adormece
no colo do horizonte
no fundo do mar.

*
De tão repetidamente imenso
o mar deveria se chamar domingo.

*
O quase-amor
me levou ao todo-mar.
Abandonei o barco da incerteza
pela travessia do desconhecido.

*
Em seu último passo
a ponte se desfez.
Não sabe que permanecemos vivos:
sob meus pés era mar.

*
Voou tão alto
na tentativa de esquecer.
O céu, grande amor,
é para os que não temem o mar.

*
Não há mais porto ou mar.

Aprendo a afinar violinos
para dar partida a meu barco.
Todo adeus exige
um mínimo de reverência
à beleza vivida.

*
Morri pelas mãos do mar.

O céu é a praia que podemos
depois de encontrar.

*
Morri pelas mãos do mar.

O amor é a praia que perdemos
antes de encontrar.

*
Decretaram a morte daquele mar
irreversível sentença.
Idiotas.
Cansado de se prestar a estudos
aquele mar apenas recolheu as asas.

*
Simultaneamente
tapete e caneta
iniciaram um rio azul
em meus pés e mãos.

No encontro do peito, a surpresa:
a pulsação de um mar antigo.

*
Não guarde uma ou duas
lembranças de mim.
Diante do mar
feche os olhos.

*
Aprisiono o vento
em garrafas plásticas.

Por qual mágica ou destino
tudo o que suspeita morrer
tenta ser o mar?

*
Tento passos
mas as botas do passado
ainda estão pesadas de mar.

Meus olhos, vazios.

*
O vento obriga o mar
a movimentos irregulares.
Não, não são ondas
mas breves arrepios.

*
Atravesso a palavra amargor
e dela salvo o mar escondido.

A espera é um barco perdido.

*
O piano virou mar
às primeiras notas de dor.
Quando se perde
a direção de uma melodia
só se pode partir
sem direito a voltar.

*
Poderia ter dito algo
mas absteve-se.
O silêncio o levou
para o fundo irrecuperável do mar.

*
O mar avisou:
naufragarás.

Eu nunca soube entender
a língua dos grande amores.

*
Mortas,
as correntezas viram nuvens.

A chuva nasce no mar.

*
Quando fecho os olhos
ele cabe todo em mim.
Quando abro, os sonhos também.

O mar, não Deus,
é o pertencimento possível.

*
Cerco o mar por todos os lados
e sobre as águas confortável me deito.
Na profusão dos egoísmos necessários
sonho-me ilha.

*
A gaivota mergulha
e volta sem peixes.

A fome era apenas viver
o breve do fundo do mar.

*
Chegar precisa ser maior que partir.

Todos os dias saúdo o mar.

Perdoar precisar ser maior que esquecer.

*
Vim ao mundo pelo mar
e ao desconhecido por ele voltarei.
Quando eu morrer
saberão que sonhei
ser o barco da lua.

*
Com muitos cuidados
escrevi a mensagem
que ao mar dediquei.

As mãos que a leram
à garrafa a devolveram.

Não havia como salvar
uma saudade de séculos.

*
Quando me leva
de volta nunca me traz.

O mar é só futuro.

*
Quando escrevo
inevitavelmente choro.

Meu mar,
algaço de palavras.

*
Entre as flores
do meu ramalhete de sargaços
o perfume de um nome.

Não, não era o teu
mas o da tua saudade.

*
Ninguém desceu da frota
de caravelas aportadas.

Sua covardia observa da escotilha
a morte lenta de minha espera.

*
Em seus olhos
a chave do mar.
Quando nele entrei e mergulhei
meu corpo aprendeu a respirar.

*
Meu nome à deriva vira barco.

Sobre a culpa da tua saudade
para sempre flutuarei.

*
O peixe morre pela boca.
O poeta pelo mar.

*
A mão, mar
Os dedos, caravelas.

A poesia, o destino.

*
Lerá minha mensagem
agasalhado por mão alheia.
Dirá: nada sei a respeito.
Devolverá a garrafa novamente ao mar
até que o próximo porto o denuncie.

*
Um barco
atracado à geleira.

Quando era possível partir
sonhamos.

*
Desenho bordas
para um mar avesso.

Também a saudade
precisa de limites.

*
Fácil encontrar o mar
mais fácil navegá-lo.
Difícil dele se afastar
mais difícil esquecê-lo.

Não à toa
mar cabe em amar.

*
A voz do mar é
feminina quando onda
masculina se trovão.

O silêncio do mar
é sexo em repouso.

*
Partiu como bravo oceano
Voltará fiorde tímido.

Um só barco
para dois destinos
explica a travessia do tempo.

*
À beira
o último passo
vira primeiro.

Quem dera
fôssemos o mar.

*
O Pacífico, tão longe
O Atlântico, quisera perto.

Não se pode medir
somente suspeitar
o tamanho de uma saudade.

*
Mais um dia
sem mar ou deserto.
Sou a poente entre
o sonho e o incompreensível.

Permaneça. Na travessia.

*
Atravesso estações
como se fossem mares.

Há uma orquídea a ser salva
do fundo abissal.

Meu desejo jamais envelhecerá.

*
O que era para ser dito
mar se fez.

Hoje moramos no fundo
sem saber que o barco jamais naufragou.

*
Começamos a morrer
quando o mar
não mais nos deu bom-dia.

*
Conto auroras entre os dedos.
Delas escapa um mar
depois um navio
logo adiante um naufrágio.

O amor só deveria nascer.

*
Para a bruma
teus olhos.
Para a saudade
meu barco.

Ainda somos o mar.

*
Disfarçado de tinta
o mar escreve memórias.

Toda folha em branco é barco.

*
A primeira venço
A segunda me cobre.

As ondas recolhem
mais um navio à deriva.

*
Muito perto de ti
o surgimento de um mar.

Meu desejo não tem limite
de ser o que não é.

*
Desenhou à distância o mar
onde atirei gravetos
e os versos que com eles escrevi.

Porém, jamais mergulhamos.

*
Não haverá mais naufrágio.

O mar
finalmente descoberto
é pátio líquido.

*
Um grito sem resposta
e a falsa calmaria de um adeus.

Mais do que um destino
perdemos o mar.

*
Fora dos trilhos
o trem quer o mar.

Toda perda busca o consolo da beleza.

*
Os dedos, à deriva,
amparam um mar insuspeito.

(Lágrimas).

*
Uma pena flutuava
entre céu e mar.

A beleza
é não possuir um destino.

*
Quando nele estou
ouço mais vozes
que vejo horizontes.

O mar me diz
o que os olhos não conseguem.

Viver é apenas adiante.

*
O mar conta as horas em ondas.
Nós, em intervalos da distância.

*
Depositei o mar imaginado
nos olhos do grande amor.

O que foi feito de meus sonhos?

*
Avariado, o corpo
despediu-se do cais.

Nem toda espera
é para sempre.

*
Escrevi 500 mares
para uma só saudade.

Será sonho ou poema
o barco que avisto?

*
Aponta o farol ao longe.
Garante ter enterrado lá
o monstro da dúvida.

Subo ao barco
mas para passeios à beira.

*
A imensidão limitou-se
a cinco ou seis oceanos.

Grande demais
a sombra daquela saudade.

*
Para ele perdemos
anéis e velhas alianças.
Dele recebemos
atraques e novas esperanças.

Ao mar não podemos mentir.

*
O homem que não sabe rezar
conversa com peixes e pássaros.

Limpo de barro e culpa
vive o necessário
para nunca morrer.