Faço poemas para os maus indícios
intolerância aos ventos
embarcações fadadas a naufrágios.
É para essa gente desgovernada de paixões que escrevo
ainda que eu apenas escondido as viva.
Sou o porta-voz do caos amansado
inofensivo aos que pouco temem: somos iguais.
Não há praia, somente rebentação
o centro, por excelência, em espirais.
Meus versos abençoam os maus agouros
e rezam pelas melancolias.
Nada tenho contra as luminosidades
mas só visto a manhã com os trapos da lua nova.
Sou eu o navegante sem bússola
certo em seu destino de conhecer
os algaços que recusam a beira.

Pelo mar atravesso o mundo.
Se atraco, minto civilizações
desautorizo milagres.
Sob as águas mergulho homens
e a eles entrego o tesouro tão valioso:
respirar a vida de olhos abertos.
Assim a verdade se faz partilha
e posso dormir os sentimentos
em proa de conforto e sargaços.
Minha caravela de esperantos
vez por outra alça ventos e parte
do trapiche seguro do peito
para o espraiamento de encontrar.
Algum barco de espelhos, à deriva,
há de receber as flores que o Atlântico
diariamente me dá.

Atraco meu navio
nas costas nuas da sua enseada
sem saber o tempo certo de ficar.

Serei breve,
como a vida.



Buscam em mim a verdade
também eu.
Mas o que posso
e sem receios entrego
é a coragem de atravessar
o mar que jamais existiu.

Eu, o barco que tanto esperei.



Havia um mar naquele corpo
contemplativo a mim, parado
como se olhos tivesse.
Em sua ignorância de não se saber mar
me navegava.

Tecemos costas e anoiteceres
no mais ameno silêncio.
Depois, à hora de partir,
partiu sem direção ou remorso.

Minhas lembranças
superam os naufrágios.



Solto o cabo
mergulho os pensamentos
na correnteza.
Finjo afogar
até o batel desavistar
no infinito.
Teu futuro
não está mais em minhas mãos.



Admito todos os fracassos.
Com lágrimas azuis
recolho o mar que entreguei.

Volto ao primeiro dia
e num retrato impossível congelo
o instante em que suas mãos
sopravam pesqueiros ao remanso.

Fomos longe demais.

Marinhagem

Contorno as margens
com mãos libertas
mas saudade moderada.

A hora de navegar
já cumpre conselhos e bússolas:
desviar do norte das ausências
pouco desafiar virações passageiras.

Capitão-mor de meu próprio barco
escrevo a carta dos novos descobrimentos
para trocar espelhos, flechas
algumas palavras comigo mesmo.
Em meu cais dispenso pedras consagradas
devolvo amarras não consentidas.

Não atenderei ao chamado.
O mar que aguarde
o tempo certo de minha calmaria.



Trouxe-me tranças de junco
e dezenas de palmas.

Reconstruímos a casa onde nunca morou:
sequer ouvira falar de tempestades.

Ainda hoje preparo o café
às vezes a janta.

Pela janela de barro vejo o mar
que com ele partiu.

Algum dia chegará
com o cesto da saudade aos ombros.

Pedirá que eu lhe explique
os intervalos do sol.

Em sua sombra
descansarei.



Índico

De ti quase nada se ouve.
Por aqui só olhos e ouvidos ao Atlântico,
com o Pacífico sonham.
Mas são teus os sonhos vermelhos
fonte de rubi e sangue a correr em meus córregos.

Velho mar das índias
és áfrica, ásia, austrália, antártida, austral
monte líquido de sais, correntes, recifes, atóis
deltas para civilizações marítimas
pátria deslocada onde nau alguma navega: chega.

Por que freqüentemente a mim? Onde darás?
Em qual desembarcadouro que desconheço?
Ventos e sinos de novo anunciam
a tua presença inesperada no verso
e mergulho à busca dos tesouros imaginados.

Mas o que quero de ti são as algas azuis, verdes ao sol,
ainda mais azulinas quando sobre minha pele.
Descanso sobre as areias de qualquer praia
que te reconheça grande, imperioso
senhor dos atlas, exemplo das geografias.

Será que em ti antes nasci em espumas de ouro?
Índico. Palavra que é seta, mato, entidade
e no entanto mar. Não mar, oceano.
Queria possuir-te, consolo que fosse,
em potes à estante de casa.

Quais cardumes e silêncios?
Quantos maremotos e saídas?
Em que afundamento? Sob que azimute?
Mas não há como cercar-te, capturar-te
nem mesmo nas fotografias que pensam tirar.

Transbordas dos porta-retratos postados
nas cabeceiras, alcovas, lares, povoados
e só páras ao rio mais próximo: lá te reconheces
e podes outra vez a mim chegar, para eu daqui
verdadeiramente outra vez em ti me perder.