Carta Telefônica

Nada ficou esclarecido. Não havemos de ter a ilusão de que sabemos com exatidão quem fomos ou o que seremos sem nós. E não é mais de nosso interesse saber quem somos hoje, porque podemos descobrir, a contragosto, que ainda os mesmos.

Aceito a acordada distância, aceito as negativas, mas nunca a negação do que construímos. Por que cerrar cortinas aos olhos toda vez que nos vemos? Por que esconder as mãos em bolsos e cabelos sempre que nos encontramos?

Não alimento o passado com migalhas, também não as quero, mas dele cuido com integridade. É isso que lhe peço: integridade ao que um dia estivemos tão unidos que parecíamos ou éramos invencíveis. Não renegue o que por natureza e vontade conquistamos. Faça como eu: mantenha a nossa história dentro dos livros, e quando dela quiser se afastar saia lentamente, sem gritos. As palavras e as lembranças não deixam rastro.

Não finja não ter me visto na fila do supermercado ou na luz do abajur que se acende sem querer toda vez que você se deita e não dorme. Não preciso lembrar que, mesmo entre milhões, nossos corações denunciam, um ao outro onde estamos. É o destino, e não o nosso desejo, quem conduz a vida.

Esta minha declaração, este meu pedido de esclarecimento, é feito da mesma indignação com que interpelei a certeza absurda da professora de Geografia, no ginásio, que dizia ser o sol uma estrela e, como tal, finita. “Não, minha senhora, por mais que a ciência insista, que os astronautas garantam, o sol nunca não é uma estrela. O sol é um astro-rei, independente e que nunca morrerá”. Assim como nós, o que poderia morrer um dia, ecoa quando menos se morre. Por mais que pareça estranho, alguns gatos se jogam dos altos edifícios e caem de pé.

O tanto que já lhe disse é insuficiente. Preciso ouvir o que você tem a dizer, mas, por favor, pelo menos uma vez não tente dizer a verdade, mas o que o seu coração naquele tempo queria dizer. Mesmo que seja “uma primavera de espinhos”. Mas um dia flor? Não há volta possível, sabemos – você partiu sabendo tão pouco e só se volta ao que demasia. A única explicação que peço é a de como conseguiu ir ao mundo e vencê-lo sem as minhas pernas e esperanças. Não, nada explique, apenas diga uma lembrança que novamente nos faça rir e saber que a distância é o nosso melhor lar. Nada mais me prende a você. Nem amor, sexo, dinheiro ou mesmo as voluntárias algemas invisíveis. De tal maneira que sou livre para reivindicar a preservação do que vivemos.

Se o adeus sabe anunciar o abandono, o amor nem sempre sabe pedir respeito. Mas hoje, tanto tempo depois, exijo respeito ao amor que, morto, estende a mão nas ruas em busca não de um trocado, mas de um consolo. Há muito já não o amo, mas a decência de poder lembrar o amor me autoriza a pedir memórias sadias. Lembra quando a sua febre misteriosamente passava para o meu corpo ou quando o intervalo de um dia nos envelhecia a ponto de doer? Eu lembro todos os dias sem sofrer. Por isso, não devo admitir a ignorância do seu esquecimento. Vez ou outra, a sós, erga um brinde a nós, ainda que de copo vazio. Comprometa-se sem responsabilidades com o nosso passado. É sobre ele que poderemos edificar as paixões onde agora moramos. Por mais que não queiramos, a vida requer gratidão.

Sim, aceito fracas desculpas, de preferência com uma pétala na voz embargada. Não, meu caro, não foi engano.

2007