O VERDADEIRO NOME DO REI

Quando eu era pequeno, gostava de falar asterístico, em vez de asterisco, conforme corrigiam os adultos. Eu sabia que estava errado, mas asterístico me parecia um nome tão interplanetário, moderno, prateado, meio asteróide, meio artístico, muito mais adequado a um símbolo nobre do que asterisco. Diante dos demais, ele reinava absoluto em utilidade e beleza no mundo da língua portuguesa – os invejosos diziam que era um símbolo que não fazia parte do alfabeto, muito menos da gramática. Pois sim.

Interrogações e exclamações nunca me causaram grande interesse, não me apetecem em nada. São pretensiosas demais, querendo se passar por donas da verdade: bem feito, ganharam títulos horrorosos. E o que dizer das reticências que, de tão duvidosas, quase nos derrubam no abismo de não saber o que queremos dizer? Essas, mais do que ninguém, merecem ser chamadas do que são. Sem falar das aspas que, verdade seja dita, não passam de molduras para citações e comentários. Já vírgulas e pontos finais são sutis e, portanto, mais suportáveis – lembram aquela tia não muito bonita, mas que, de tão querida, bela.

 Mas voltemos ao rei dos símbolos e o nome de batismo errado que lhe deram. Cresci me fiscalizando para dizer asterisco, palavra que se assemelha a um cisco no olho, majestade nenhuma. Nomezinho mais sem graça. Uma perda de tempo total - aliás, perca de tempo também me soa mais chique que perda de tempo, porém sugerir isso aos estudiosos da língua mãe seria visto como a maior das heresias. Como seria bom que os gramáticos, os lexólogos, os que se julgam donos das palavras emprestassem atenção especial às crianças. Se tivessem ouvido meus argumentos, certamente teriam trocado asterisco por asterístico – só de escrever dá vontade de falar bem devagar, como se fosse pó encantado de fada saindo da boca.

Hoje, quando ouço adultos – estudados até - falando asterístico, não corrijo e nem faço cara de que há algo errado no ar. Muito pelo contrário. Finjo que não percebi, continuo a conversa e, devo confessar, essas pessoas acabam por ganhar um ponto extra em minha simpatia. É que prefiro crer, lá no fundo do coração, que também elas achem asterístico a grafia a ser adotada para o símbolo-rei da língua pátria, com sua indiscutível superioridade que, sobre uma palavra, seja ela simples ou sofisticada, brilha como uma estrela.

2011