ODEIO RELÓGIOS

Os relógios sempre foram os meus grandes inimigos. Por mais que eu lhes fingisse alguma simpatia, significavam o que havia de pior no mundo: acobertavam as malditas horas que passavam e me obrigavam a ir tomar banho e aprender na escola menos do que aprendia no silêncio de casa.

Uma febre, um resfriado mais forte e lá se ia o poder incontrolável dos relógios. Assim eu os vencia. Sem falar no fim aguardadíssimo das pilhas, quando eles pareciam pedir bengalas para as horas tropeçantes diante de meus olhos e mãos impávidos. Eu nada fazia, além de ver os relógios morrerem. Lentamente. Sem que seus dois soldados magrinhos nada pudessem fazer para salvar suas horas. Lentamente.

- Em vez de ficar olhando o relógio parado, troca as pilhas, por favor!
- Hahã.

E a morte durava dias. Lentamente. Mas o pedido virava ordem e eu acabava tendo que, com as próprias mãos, fazer o renascimento daquele objeto que colocavam na cabeceira da minha cama sem nada me perguntarem. O que dizer de um ser que grita aos ouvidos até uma mão sonolenta  calar a sua boca? Os despertadores são a pior raça dos relógios. A melhorzinha são os digitais que, com resignação e mudez, cumprem a sua triste sina.

Dessa forma convivemos. Eu fingindo a lição de suportá-los; eles, impassíveis, como se eu não existisse. Mas ignoram a minha existência somente até a morte das pilhas, cada vez mais resistentes, ou quando, ainda hoje, sem ninguém notar, atraso ou adianto os ponteiros. Única e imperdível oportunidade der me sentir mais forte que o tempo.

Dizem que quando ficamos bem mais velhos, danamos a fazer exatamente o contrário do que pensávamos como crianças. É só o que me faltará: passar, um dia, nem tão distante assim, a colecionar relógios dos países que eu visitar. Antes disso, rasgo o meu passaporte.


2010