PÃO DORMIDO

     Sempre atento à esquina – era de lá que vinham os amigos e os inimigos –, armou a espinha ereta ao avistar mais um carro desconhecido fazendo a curva. Em seu plantão e ofício de praxe, ao lado de aposentados que todos os dias jogavam baralho à mesa do bar ao lado, encarou o bicho de lata reluzente. Era outro inimigo. Esperou, impassível pela aproximação, arrepiando pêlos e encaixando o rabo entre as patas. Assim que o automóvel ousou chegar mais perto, o cão avançou na direção da sua pele dura, implacável, a lhe cortar primeiro o focinho depois o resto do corpo como uma navalha afiada. Não deu sequer um uivo de dor.
     Desta vez, não teve sorte, nem houve tempo de alguém gritar “Sai, Tenente!”. Morreu atropelado. Sem pertencer de fato a ninguém, os companheiros das cartas ligaram para a coletora de lixo vir buscar o corpo. Naquela tarde, não houve mais buraco nem trunco, apenas uma rodada de cachaça em homenagem a quem os divertia com sua implicância contra os automóveis. Sem que percebessem, o dono da padaria não teve como evitar um choro breve, no depósito dos fundos, chegando a rezar uma ave-maria pela alma do cachorro. Sim, os animais também possuem alma e são filhos de deus, conforme ensina aos netos. Arrependeu-se de só ter dado a Tenente, durante todos aqueles anos, pães dormidos em troca dos serviços bem prestados de cotidianamente guardar o seu estabelecimento.


2018