O PREDESTINADO

Na falta de uma religião para me confortar, o violão era a minha igreja, onde me refugiava em batidas severas, a concordar com as canções rebeldes de Belchior. E eu carregava um segredo muito importante, que não podia dividir com quem quer que fosse, nem mesmo com minha desafinada voz. Eu não era melhor nem pior que ninguém, apenas imortal – e não havia como explicar tal preferência de Deus por mim. Eu tinha tanta certeza do sucesso permanente do meu futuro, que gastava tardes e mais tardes por ele esperando para me conduzir à glória de ser, para todo o sempre, um astro da música.

Eu tinha 16 para 17 anos quando um frio percorreu a minha espinha ao saber da morte de Elvis. Elvis não era imortal? Então por que tão grande? Os predestinados realmente morriam? Passei a repensar a minha imortalidade amansando os dedos sobre os fios já não tão elétricos do violão ao reproduzir o Noel ensinado por Bethânia. De tanto ouvir Último desejo e O silêncio de um minuto, acabei admitindo: eu era apenas mais um pobre mortal.

Aí desisti de rezar, de contemporizar, de comprar presentes para os aniversários e natais, de pedir desculpas sem nada ter feito de errado e comecei a viver tudo que tinha direito, misturando adorações e profanações, sensações e adivinhações, estampado com listrado, ultrapassado com atualizado, dando e recebendo do violão a hóstia sagrada da santa liberdade de pensar sem ter medo de sentir. Em paz comigo mesmo, logo descobri que melhor que ser imortal era ser genial: no túnel do tempo das minhas primeiras convicções, eu juro que ouvi, numa fita-cassete repleta de ruídos e estrelas, uma parceria do bom e velho Noel com o valente e jovial Belchior na voz atemporal de Bethânia.

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2010