A LUTA POR UM LUGAR AO SOL DE MIAMI

Era um homem político apartidário
com princípios humanitários elevados.
Um belo revolucionário ambicionado
por brasileiros e brasileiras: para tê-lo
negariam qualquer vinculação ou candidato.
Sempre fazia amor avidamente como fosse
a véspera de um atentado fundamental
para a manutenção da causa.
Perdeu-se na multidão de tantos.
Seu silêncio leva a crer ter se acomodado
na almofada central do sofá de sua sala.
Na última vez que o chamaram para um comício
recusou alegando motivos particulares.

Não, hoje não mais lidera passeatas
preferindo discutir a falta de foco da TV.
Os telejornais mentem, mas quem não?
Permite aos filhos participarem dos protestos
mas sem palavra de ordem escrita na camiseta
muito menos empunhar bandeiras ou cartazes.
Casou-se com uma partidária que preferiu lutar
por nova máquina de lavar de dois em dois anos.
São felizes. Possuem uma família e eletrodomésticos.
Moram num apartamento financiado já quitado
e o dinheiro que sobra vai direto para a poupança.
Daqui a dois anos irão todos à Disney abraçar o Mickey:
conhecer os índios da amazônia já é projeto desfeito.

Do país que ele tanto sonhou e me ensinou a amar
só se lembra na hora de preencher os cupons
para a promoção da agência de viagem.
Quem sabe, não é sorteado para também conhecer Miami?

2016