Um Sofá

O rio revelou-se lamaçal quase seco, todo-profundo. Sobre ele o reinado ignorado de um sofá sem estofo. Quem o vê tenta esquecer: majestade incômoda a poluir olhos cidadãos. O que pensarão os turistas?

Não há correnteza para testar seu poder. Lá ficará até que a escavadeira o retire de cena e ele perca o trono e a história de ser um sofá que, durante anos, serviu à família que sequer lhe deu um fim digno.

Enquanto a prefeitura não vem, recebe a companhia de um ventilador sem asas, uma boneca sem cabeça, uma geladeira sem motor e um balde sem cor rachado pela macheza do cimento endurecido que levantou mais uma laje.

O rio, antes rio, é agora mais um casebre entre tantos outros casebres num canto escondido da cidade.

 

2014